Ex-coordenador autárquico lamenta incoerência de João Carlos Gouveia e considera que o partido “bateu no fundo”.
Era um dos mais proeminentes militantes do PS-M em Santa Cruz. Foi presidente da Junta de Freguesia de Gaula durante dois mandatos, deputado na Assembleia Legislativa da Madeira e continua vereador na Câmara Municipal de Santa Cruz. Mas lançou uma candidatura independente às eleições intercalares para a freguesia (realizadas há duas semanas) e tornou-se uma «espinha na garganta» da direcção socialista. É Filipe Sousa na primeira pessoa.
Tribuna - O que foi que impediu o movimento de cidadãos «Pelo Povo de Gaula» de chegar à vitória nas eleições intercalares de Gaula, realizadas há cerca de duas semanas?
FS - Sempre disse que estas eleições iriam ser disputadas por duas forças: o movimento de cidadãos que integrei e o PSD. Se houve um aspecto em concreto, eu diria que foi o pouco tempo que tivemos para preparar uma campanha devidamente estruturada. De qualquer modo, sinto satisfação porque a mensagem passou.
Estranhei, devo sublinhá-lo pela sua relevância, que estas eleições tiveram quatro candidaturas e três delas centraram todos os ataques numa só pessoa: eu próprio. Contra isso nada pudemos fazer. Não entrámos em ataques pessoais, fizemos uma campanha positiva. Apesar de tudo, esta foi a melhor campanha em que estive envolvido, acima de tudo pela forma participativa como os candidatos do movimento entregaram-se a estas eleições.
Tribuna - A hegemonia do PSD na Câmara Municipal de Santa Cruz e no Governo Regional foi um factor preponderante?
FS - Não sou apologista dessa versão, não é a Junta de Freguesia que faz obras. Mas reconheço que houve um fosso enorme entre as promessas do PSD e a nossa mensagem. O PSD garantiu que faria obra, enquanto todas as outras forças candidatas apenas podiam garantir que exigiriam à autarquia e ao Governo Regional que elas sejam feitas. Há aqui uma diferença enorme.
Ficámos a 120 votos da vitória, procurando esclarecer quais são as verdadeiras competências das juntas de freguesia, das autarquias e do Governo. O PSD prometeu mundos e fundos, promessas que até vinham das autárquicas de 2005, nunca concretizadas. Tal como investimentos do programa de Governo que não avançaram até à presente data. Contra este tipo de demagogias não podíamos fazer nada, apenas esclarecer a população. Eu sempre estive preparado para a vitória ou para a derrota e este resultado eleitoral não nos deitou abaixo, antes pelo contrário. Deu-nos força, até pela solidariedade que temos vindo a receber.
Tribuna - O resultado poderia ter sido diferente se fosse o cabeça de lista?
FS - Isso nem me passou pela cabeça. Contrariamente às ideias veiculadas pelas outras listas concorrentes, assumi um compromisso com a população de que encabeçaria candidaturas à Junta de Gaula apenas por dois mandatos. Só figurei nesta lista por acreditar no projecto. Julgo que a nossa acção cívica está a ter alguns reflexos positivos, não só nesta freguesia, como também em todas as outras freguesias do concelho.
“Líder do PS foi o primeiro a pensar em independentes”
Tribuna - São ambas expressões do líder do PS-M, João Carlos Gouveia, intervaladas por sensivelmente um ano. Qual é a sensação de passar de “valor imprescindível do PS-M” para “cacique” local?
FS - Lamento profundamente certo tipo de declarações de alguns responsáveis socialistas. Nem quero personalizar, mas tenho de lamentar publicamente a incoerência de certas pessoas. Para mim, é penoso e frustrante saber que esse tipo de pessoas estão a representar uma instituição como o PS-M.
Tribuna - Quando o PS-M ataca Filipe Sousa está a dar um «tiro nos pés»?
FS - Sem dúvida. Ainda hoje não acredito na campanha do PS para as eleições intercalares de Gaula: não tinha ideias nem projectos, procurou apenas apelidar-me de traidor. Não me passava pela cabeça que tais argumentos fizessem parte das ideias defendidas por João Carlos Gouveia.
O líder do PS-M foi, em Dezembro de 2007, a primeira pessoa que me falou num cenário de candidaturas independentes à Câmara Municipal de Santa Cruz. Senti sempre que essa era uma ideia firme da sua parte, tendo vindo a saber, de resto, que era algo que ele também chegou a defender para a Câmara Municipal do Funchal. Naturalmente, fiquei surpreendido quando foi o próprio dizer-me que a conversa que havíamos tido estava a sofrer fortes resistências dentro do partido.
Tribuna - O líder do PS-M voltou atrás nas suas convicções?
FS - Válidas ou não, as ideias do líder do PS-M estão a esbarrar em alguém que controla a máquina partidária. Isso é triste e frustrante para todos os socialistas. Significa que João Carlos Gouveia é um líder fortemente condicionado, não sei se por interesses políticos pessoais.
Em Janeiro de 2008, após a renúncia ao mandato por parte de Nazário Coelho, o próprio líder do PS-M convocou uma reunião em Gaula com os autarcas do PS no concelho e, junto com outros elementos da direcção, defendeu a queda da Junta de Freguesia, dizendo que seria a melhor solução. Manifestei-me totalmente contra a ideia, propus que se conversasse para encontrar soluções.
Tribuna - Quem propunha João Carlos Gouveia que viesse a encabeçar a lista candidata a novas eleições?
FS - Aí é que está o problema. Já nessa altura sabíamos que não tínhamos condições para encabeçar uma candidatura pelo PS ou por outro qualquer partido. O líder do PS-M já sabia dessa indisponibilidade desde Janeiro, algo que já vinha ao encontro do tal projecto de cidadãos independentes e era defendido pela larga maioria dos autarcas locais. A dada altura, João Carlos Gouveia fez depender o apoio do PS-M a uma candidatura independente à Junta de Gaula de um compromisso da minha parte de que assumiria a candidatura pelo PS à Câmara Municipal nas autárquicas de 2009. Declinei e passei a ser um “cacique” e um traidor. É este tipo de incoerência que está a destruir por completo a confiança do povo nas instituições.
Tribuna - Ficou surpreendido pela forma como decorreu a campanha?
FS - Não deixa de ser engraçado que o principal adversário do PS e da própria CDU não tenha sido o PSD, mas um grupo de cidadãos que tinha um projecto para Gaula, um projecto supra-partidário, independentemente de termos o apoio dos partidos A, B ou C. Não consigo compreender como é que o líder do PS fica feliz pelo PSD ter conseguido ganhar mais uma autarquia, como é que duas ou três pessoas que estão à frente do principal partido da oposição são capazes de lançar foguetes em caso de derrota.
Tribuna - Os estragos no PS-M não seriam piores em caso de vitória da lista pela qual se candidatou?
FS - Sabendo eu as conversas que tivemos, se fui bom quando aceitei integrar projectos partidários do PS, certamente não deixo de o ser quando declino alguma proposta. Eu também já convidei pessoas que declinaram entrar em determinados projectos, mas não foi por isso que a minha opinião mudou em relação a elas.
Tribuna - Já garantiu publicamente que este movimento vai estender-se à autárquicas do próximo ano. Quais são os objectivos?
FS - No domingo vamos falar à população de Gaula, à saída das missas, e dizer-lhes que este projecto não acaba pelo facto de não termos ganho. Isto é para continuar, porque temos sentido um «feedback» positivo nas outras freguesias do concelho e deixar o projecto morrer seria defraudar as expectativas de todas as pessoas que acreditaram em nós. E dizer-lhes que vamos continuar atentos às promessas do PSD.
“PS bateu no fundo, não sei se consegue descer mais”
Tribuna - Afasta definitivamente a hipótese de vir a candidatar-se por algum partido?
FS - Não posso dizer que «desta água não beberei», mas não me sinto minimamente motivado para algo desse tipo. Gosto de fazer parte de projectos onde me sinta livre. Foi o que aconteceu nesta campanha, com este movimento cívico. Quando fazia campanha pelo PS tinha que telefonar e insistir com as pessoas para que participassem. Desta vez foi diferente, há outro interesse e isso é para mim o mais importante.
Tribuna - Quem ganhava eleições em Gaula, o Filipe Sousa ou o PS?
FS - Continuo a achar que em eleições autárquicas as pessoas não votam nos partidos, votam nos candidatos. Mas, apesar das vitórias conseguidas em Gaula, os dirigentes do PS-M nunca tiveram o menor reconhecimento pelos resultados alcançados. Tendo em conta o que agora se viu nestas intercalares, as declarações proferidas, pergunto-me até onde este partido vai chegar. Penso que já bateu no fundo, não sei se consegue descer mais.
Tribuna - Vai ser o cabeça-de-lista do movimento cívico às autárquicas do próximo ano?
FS - Não faço questão disso. Há quem diga que eu quero o poder pelo poder, ou para entregá-lo a este ou aquele. São pessoas que não me conhecem. Eu gosto de integrar projectos, não interessa o lugar.
Tribuna - Admite a corrida a todas as freguesias do concelho?
FS - Estamos a pensar nisso. Existem contactos em duas ou três freguesias no sentido de avançar com candidaturas de cidadãos. Se tivéssemos outra Lei Eleitoral, teríamos todo o processo facilitado, permitindo-nos, a exemplo do que se passa nas juntas, apresentar uma lista conjunta à Câmara e Assembleia Municipal, fazendo com que o processo de elaboração das listas fosse muito mais fácil.
Tribuna - Será mais um rude golpe no PS-M, desta vez num concelho onde o partido costuma ter grande peso eleitoral.
FS - Há pessoas no PS-M que deviam parar para reflectir no que aconteceu em Gaula, apesar de considerarem a freguesia uma paróquia - uma paróquia que lembro já ter dado muitas vitórias ao partido. Perante as declarações que vieram a público na sequência das eleições, julgo que o melhor que tinham a fazer era pôr o lugar à disposição. Reconheço que Gaula é uma freguesia pequena, mas não deixa de ser um sinal importante. Tendo em conta os desafios eleitorais do próximo ano, é preciso que o partido leve um abanão. Precisam de ver, de uma vez por todas, que o caminho que estão a seguir não é o ideal e não trás quaisquer benefícios.
Tribuna - Esse abanão está a passar pela actuação do próprio Filipe Sousa?
FS - Não, nunca foi meu objectivo destruir qualquer direcção do PS-M. Muito se fala que a minha divergência com o partido advém do facto de não ter sido eleito deputado, mas o dr. João Carlos Gouveia sabe em que condições eu integrei a lista do PS-M candidata às regionais antecipadas de 2007. Nunca me preocupei com o facto de ser ou não eleito. Não o vejo como mentiroso, mas, se João Carlos Gouveia quer desmentir essa realidade, não está a ser correcto. De qualquer maneira, é um facto que muitas vezes é incoerente e não sabe ajuizar as suas palavras.
“Antes de militante, sou cidadão”
Tribuna - Tendo em conta o que se passou em Gaula, não teme ser acusado a partir das autárquicas de 2009 como o homem que acabou com o PS-M?
FS - Não gosto de fazer futurismos. Mas tendo em conta os resultados eleitorais de Gaula, as reacções que se seguiram e a dimensão que o concelho de Santa Cruz tem para o PS, corro esse risco. Mas o meu objectivo nem passa por pensar o que vai acontecer a este ou aquele partido, ou aquilo que eles vão pensar da nossa candidatura. Antes de ser militante do PS (ou ex-militante, não sei, nunca me notificaram acerca disso) sou um cidadão. A participação democrática na vida pública não se esgota nos partidos. Sempre o disse, mesmo no seio do próprio PS-M.
Tribuna - Se o PS-M tivesse agido de forma diferente e garantisse apoio ao movimento independente nas eleições para Gaula, teria aceite ser cabeça-de-lista do partido à Câmara Municipal no próximo ano?
FS - Isso nunca iria acontecer. Sempre fiz ver a João Carlos Gouveia qual era a minha visão sobre a participação na vida pública. Ele tem que entender e respeitar a vontade das pessoas. Quando me neguei a assumir esse compromisso, não estava pensando em destruir o partido à força, tinha razões pessoais e profissionais para tomar essa decisão. Penso que este grupo de cidadãos pode fazer algo pelo concelho. Se o conseguirmos, tanto melhor, em caso contrário também não vem mal ao mundo.
Tribuna - Mas admite que o facto de ser até há pouco tempo uma figura importante do PS-M no concelho de Santa Cruz está a ter implicações no partido?
FS - Tudo bem. Mas o que está a acontecer ao PS-M não advém do facto de Filipe Sousa ter abraçado uma candidatura independente. As decisões tomadas pelo partido é que devem ser levadas em conta por quem tem responsabilidades. Desde a primeira hora, sempre disse a João Carlos Gouveia que, independentemente de quem estivesse na disputa por Gaula, o grupo de cidadãos ia entrar na corrida. Uma semana antes da entrega das listas, o dr. João Carlos Gouveia veio dizer-me que o PS também iria apresentar candidatos. Com que intenção? Demover o Filipe Sousa? O PS esqueceu que a candidatura independente era uma pretensão generalizada de várias pessoas.
Tribuna - O apoio do BE e do CDS/PP foi prejudicial para uma candidatura que se queria assumir como supra-partidária?
FS - Não penso que tenhamos perdido por causa disso. Foi um argumento bastante explorado pelo PSD, mas o povo não olha a isso. A população de Gaula deu a maioria de mandatos ao PSD porque acreditou nas promessas feitas.
Entrevista de Filipe Sousa ao Tribuna da Madeira, da passada sexta-feira.